Outro dia conversava com uma amiga a respeito da rotina. É engraçado notar como as pessoas abominam o ordinário cotidiano como se fosse uma espécie de mesmice burra. Sonham com viagens ou com uma "outra vida" num interior qualquer ou em outro país, como se isso depois de um tempo não fosse se tornar uma outra rotina, tão óbvia e previsível quanto a anterior.
Poderíamos inclusive dividir a rotina em subgrupos. Tem a rotina anual, que culmina na virada do ano, com o famoso mais do mesmo: sair correndo para a praia, vestir-se de branco e tomar champagne na companhia de milhões de pessoas. Esse planejamento de férias coletivo é uma das evidências de como as pessoas não sabem lidar com a rotina. Todas saem ao mesmo tempo, quando já estão exaustas do ano inteiro de trabalho, pagam mais caro pela diversão e retornam juntas, contribuindo para as filas nas estradas, aeroportos e rodoviárias. Ou seja, se dão atestado de que não gostam da rotina, mas não fazem nenhum esforço para sair dela.
A rotina mensal poderia ser notificada mais especificamente com os dias dos lançamentos de salário na conta corrente e com os débitos mais obviamente programados como aluguel, plano de saúde, telefone e contas da casa. Final de mês é sempre tempo de dureza e os bancos têm dias certos para todos unirem seus papéis da Eletropaulo e Sabesp nas mãos, para se livrarem em uníssono da possibilidade de ter que acender as velas em casa e tomar banho na casa de algum amigo.
Durante a semana, todos saem mais ou menos nos mesmos horários de casa de manhã (com as levas dos que acordam às 4, 5, 6, 7 ou 8h da manhã), sendo que a maioria deixa o trabalho às 18h e vão correndo para casa.
Dizem que São Paulo é uma cidade que não dorme. Mas tem sua rotina também. De segunda a quarta-feira, em geral, saem os que não trabalham ou os baladeiros de primeira hora. A partir de quinta, as ruas de noite começam a se encher, com o ápice no sábado, com os bairros mais notívagos cheios de carros e filas nas portas dos lugares. Nem preciso mencionar os feriados, já que o mar de carros fica estampado em todos os jornais para exaltar a inteligência de todos os que resolvem fazer as mesmas coisas ao mesmo tempo.
E ainda tem a rotina dos dias propriamente dita, divididos por horários. Acordar, chegar ao trabalho, sair pra almoçar, voltar do almoço, sair do trabalho, chegar em casa ou em algum programa, tomar banho, comer, tentar se divertir um pouco e voltar a dormir.
Na verdade, toda a rotina que descrevi, anual, mensal, semanal e diária, está necessariamente vinculada ao trabalho. A não ser os desocupados de plantão e os que vivem de renda, todo o restante está preso a isso. Dizem que o salário deveria levar em conta tudo isso, já que organizamos a nossa vida inteira em torno da labura diária.
É um sistema muito forte que organiza (e tiraniza, por que não?) a coletividade e nossa vida íntima. Como passamos a vida inteira dentro disso, dando força à algo que, no fundo, abominamos? Por que dedicar-se a malfalar algo que absolutamente não lutamos contra ou mesmo não buscamos brechas para quebrar um pouco essa dureza imposta?
Digo tudo isso porque eu advogo a favor da rotina. Lembro-me quando passei algum tempo viajando e a minha rotina era pegar trem, fazer mala, conhecer uma cidade nova, pessoas novas, igrejas, museus... e quer saber? Tem uma hora que isso cansa.
Adoro a minha rotina. Os meus horários de acordar e dormir, tudo quase sempre igual, os sábados, domingos. Quando por acaso viajo num final de semana, coisa que também gosto de fazer, tenho um enorme prazer de voltar pra casa e encontrar tudo o que eu já conheço, as coisas nos seus devidos lugares, os gatos fazendo as mesmas coisas, tendo que preparar minha mochila da malhação do dia seguinte, organizar a roupa que vou usar para trabalhar e pensar nas tarefas que terei que executar durante a semana.
Podem me chamar de chata, metódica, pragmática. De outro lado, na maioria das vezes os programas que faço estão na contramão da massa. Vou ao cinema nos horários que não têm filas, viajo quando todos ficam, compro o ingresso para o show que quero ir com antecedência e chego mais cedo pra não me estressar, ou então vou a um show que é maravilhoso mas que está inacreditavelmente vazio. Este ano, por exemplo, passei o ano-novo pela primeira vez em casa, tomando champagne em excelente companhia, fazendo rituais muito particulares. Longe, muito longe da massa que suja as praias com suas superstições genéricas.
E não fico de mau humor quando a segunda-feira chega.