Todos temos dúvidas na hora de escolher um livro para ler. Entre um clássico e um contemporâneo, ou seja, investir na formação, digamos, mais histórica ou estar antenado nos lançamentos, é sempre um dilema. Na hora de ler ou mesmo de comprar.Tenho uma amiga, muito culta por sinal, que lê muito. Ela é filósofa e tem uma bela biblioteca na sua casa. Foi ela quem me fez ler tudo da Clarice Lispector quando eu tinha uns 18 anos e até hoje me empresta seus livros. Fernando Pessoa foi outro que ela me apresentou, assim como foi ela quem me levou a primeira vez num show de Maria Bethânia (Imitação da Vida, em 1998). Ela tem o hábito de comprar muitos livros, daqueles bem grossos. Algumas coisas ela lê para "limpar a cabeça", best-sellers descompromissados ou mesmo romances históricos, daqueles que os intelectuais torcem o nariz. Nós temos esses preconceitos. Por exemplo, ler Isabel Allende é cafona, mas pegar um livro de Siri Hustvedt, mulher do Paul Auster, é mais cult. Deixando as diferenças literárias de lado, há um outro fator que nos faz ler algo: a afetividade.
Eu nunca tinha pensado em ler Henry Miller. Assisti ao filme Henry & June, de 1990, dirigido por Philip Kaufman, com os atores Fred Ward, Maria de Medeiros e Uma Thurman, que formam um belo triângulo amoroso. Mas ontem, comprei, a 70 reais, o seu Plexus. Por quê? A explicação é afetiva.
Andando numa livraria dessas de shopping, uma mega store Saraiva (essas que os intelectuais também torcem o nariz), parei com minha mãe na frente da gôndola de lançamentos. Ela sempre gostou muito de me dar livros de presente. E nesse dia ela parou na frente do Plexus, e fez menção de comprar pra mim. Ela comentou sobre a trilogia, que deveria ser bacana de ler, mas eu não dei bola, desdenhei o Henry Miller com a maior despreocupação. Pois ontem eu fiz questão dele. Foi como se, após sua morte, minha mãe me desse de novo um livro. Aquelas 600 e tantas páginas me darão uma conexão com ela e eu adorarei o Henry Miller meio espiritualmente. Foi depois que notei que esse livro mostra a relação dele com os amigos na boemia nova-iorquina dos anos 1920 e sua busca por se tornar um escritor. Isso me perturbou um pouco. Por que justamente esse assunto? A busca por tornar-se um escritor... Será uma mensagem velada vinda do céu? Minha mãe não tinha idéia que este era o assunto principal do livro, e agora, ela me dá essa mensagem em forma de coincidência? Talvez a resposta esteja longe ainda, mas, pelo menos, ela está se comunicando comigo. (De forma inusitada, por suposto).
E eu terei a vida inteira para decifrar seus sinais.

