quarta-feira, 12 de março de 2014

e lá vai.
mais meio século, alguns quilos e uma garrafa de vinho.
o sino bate, mas só no filme.
os filmes italianos deveriam ter todos, sinos.
alguma coisa vai, sempre sofrida
aquilo que uma vida inteira, nem uma morte, explica.
um dia somos todos onerosos, falantes, nas festas, na fila
intensos
alguém grita - um gozo! - no meio da noite.
te acorda num sopetão, lamento, não sou eu, veja bem
desse jeito não seria.
seria uma solidão, obrigada - olívias, carminhas, vocês me deixaram bem assim
tentando tocar trompete.
vem aqui, me conta um segredo
eu esquecerei amanhã - e não te julgo
os segredos são como acontecimentos: tanto faz!
uma lua nebulosa - não é ela que me encanta.
assim, uma vez mais, sem vertigem, o que é bem bonito
cabe numa fresta.
faz uma foto de si mesmo, se projeta
de um jeito: assim me vejo hoje ou como deveria.
fica aqui um minutinho, de um jeito que caiba no futuro.
com seu dourado, com seu cansaço,
me acorda de madrugada, esquece seu nome.
numa noite longínqua que dura dois dias.
me mostra seu colar, sua fala mole, esfumaçada.
um samba curto, na sala de casa.
em curvas, te digo. vem no meu tapete.
prova uma champanhe gelada. deita um dia quente
em cima do mosaico que um dia vi num museu, longe de você
e que sorri, sorri demasiado de pensar que.
era ali. era ali que eu queria.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

esquina.
vira.
uma página.
não sabe se vira ou se
volta.
se vira,
seja certo ou seja.
é você?
ou é apenas um vulto.
um vulto
quase roxo
como uma canela
com sangue pisado.

eu mesma passo
remédio.
que remédio passa?
é você que
passa?
ou que vira
a esquina,
e não volta.

volta e passa.
leva um fio de cabelo
com o vento.
e faz um barulho
de avião.

o trompete. não
cheguei a tocar. e já
desisti.

era para tocar
uma música, uma
música infinita.
como uma inconstante vontade,
aquela que saiu daqui hoje,
cantando pneu.

eu te contaria.
um segredo. um segredo que voaria
num zepelim colorido,
todo cheio de vontade.

eu tinha até parado. mais uma
palavra, por favor. uma palavra
rebocada como um náufrago
que sobrevive
numa bolha de ar.

diga-me qual seria. solidão?
silêncio?

talvez.

talvez antes de morrer, no derradeiro
minuto,
eu escolha. justamente.
ele.
o silêncio.
e como seria longo.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

não é para levar tão a sério. nem um mistério profundo é tão sério, bem disse a poeta. a vela queimava há um mês. bem hoje, justamente hoje, o dia que carregava o poder decisório da mudança, ela, que era colorida, laranja, azul clara e azul escura, ficou preta. a vela ficou preta. a vela que fica no seu altar. ao lado dos santos das musas dos deuses que regem sua parca fé. justo entre ontem e hoje. e quando entre ontem e hoje definem a sua vida. e então quando era para tudo explodir e virar uma página, não vira. quando era para o avião decolar, não decola. uma esquina, uma viela que não vai ter fim. então você não entra. definitivamente não entra. ah, o eterno sabotador. aquele diabo que faz o seu carro bater por um pequeno ângulo e por 0, qualquer coisa, muda a sua vida. oi, querido sabotador. você tem cara de vela preta. que diabo! mas ao meu querido diabo eu mando um recado:
 
- você me pegou!
 
agora te convido para tomar um vinho. ahm hã.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

vão desmedido. esquina virulenta. sopro atroz. uma fresta, aguda. a realidade, é esta.

sábado, 17 de agosto de 2013

Um minúsculo tempo. Uma fresta. Pausa para o café. E então.

sábado, 27 de julho de 2013

Um dia ali. Um dia na casinha amarela. Sozinha. Todos os cômodos vazios, e um pouco empoeirados. A casa em vigília. A casa, olha, ela está quase pronta. O que é estar pronta mesmo. A casa reza. Reza em si. Reza só. Suas paredes pintadas de uma cor nova. Um abraço. Um abraço na casa nova. Que é velha, dura mais de cinquenta anos. Não me dê nada de novo. O que eu quero é estar aqui. Exatamente aqui. Esticar meus lençóis. Só me deitar sobre eles e vislumbrar o que sempre fui.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Não há mais tempo. O tempo acabou. Os carros atravessaram o farol enquanto o tempo piscava. As luzes brilhavam, a lua está tão. Acabou. O tempo não é. De ninguém. Também não é mais soberbo, a não ser em outras. Galáxias? Se na rua, se em casa. O tempo tem horizonte? Estreito, uma faixa, uma linha, um ponto, uma! Lá vai, se foi, nem memória. O agora, um! Agora, sim! Mas agora? O agora tem horizonte? O agora é uma linha, ou um ponto? Agora o tempo, agora largo, e se toca uma campainha? Foi! Se toca uma linha, só uma nota se vai, e nos ouvidos, fica. O tempo é o corpo.