quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tem dias que não. Tem dias que não há. Acordo sem verbo. Não pula da cama um esboço nem um rascunho meu. Tem dias que não há verbo. Tem dias que não tenho nome. A manhã segue emperrada, não tenho. Devo ter morrido, talvez. A morte deve ser isso. Acordar sem verbo.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

É entrelaçado, o verbo. Verbo entrelaçado. A sua mão entrelaçada. Tanto pequeno como pode ser grandiloquente, o seu carinho. A tudo envolve, o abraço o seu jeito de abraçar até sobre o asfalto até sobre as pedras eu deslizo. Das palavras o verbo. Entrelaço com você a palavra o emaranhado aperto a borda do colchão grito abafado fecho os olhos comigo dentro, com você emaranhada no meu delírio.

sábado, 7 de abril de 2012

Ela dá uma passadinha aqui em casa. Sábado a noite. De preto, mal intencionada. Vamo aí. Dá um oi para o Astor, toma uma cerveja. Toca a campainha sem avisar. Vamo aí. Não sabe bem onde. Passou a tarde lá no Lollapalooza. Foi pra Paulista, depois pro Biu. Toma uma cervejinha em casa. Coloco The Full On The Hill para escrever o texto. É tão a cara dela. Vamo aí, vai. Vou tirar a calça xadrez de dormir.


para a Amanda

quarta-feira, 21 de março de 2012

Atravessa. Inaugura. Invade. É a voz, mas também podem ser as palavras. Ou a língua. Não diria nada privado. Mas o amor atravessa. Inaugura, invade. Derrete. Uma combustão, duas combustões. Sem ar. Pinga. Embriaga. Encharca. Incha. Perfura a parede. Pendura quadros com borrões. Sou um delírio e sua boca perfura e desobedece meus sentidos. Eu desobedeço meus sentidos. Eu não tenho sentidos. Formigam vertigens, mãos na parede. Sua boca jorra sentidos.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Eu tenho uma espécie de medo do mundo. Um medo irracional, ilógico, ancestral. Não chega a me paralisar mas invade por um ou mais segundos e me faz pensar de um jeito estranho. A cidade não é suficiente para aplacar minha angústia. Pelo contrário. Quando saio, me sinto ainda pior. As ruas vociferam e atropelam tudo quanto. Os carros passam rápido e me deixam em vertigem. A minha labirintite ataca. Selvagem, deito no chão, e fecho os olhos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

É, muitas vezes, a única palavra. A única palavra pode ser. Um empurrão, ela vem como um sopro quando é o estômago que está amarrado, distorcido. Eu vou desfalecendo, uma hora deslizo, quase sem barulho, delicadamente debruço e me encolho no chão de madeira da sala. Ali fico, como uma lagarta tendo alguns espasmos, respirando forte, como uma única e inequívoca certeza.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Sonhei. Eu não estava na minha casa. E não era eu. Não sei quem era. Mas estava num elevador. Errava o botão. Ia mais alto do que podia. Estranho ir mais alto. Sempre fui ao rés do chão, vez por outra frequentando porões, escuros e úmidos, com roedores me ameaçando. Ir alto, alto demais, no último andar. É longínquo. É um dia. É quase hoje.