sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Momento-interação com Zélia Duncan

A TV Cultura exibiu, sabe-se lá há quanto tempo, um especial com a Zélia Duncan cantando os sucessos de seu segundo disco, cujo título é seu próprio nome. Ela estava estourando com sua versão de Catedral, originalmente composta por Tanita Tikaram, alemã de nascimento e inglesa de criação, que fez sucesso nos anos 1990. Nascida em Niterói, Zélia apareceu com voz grave e composições de sua autoria, num estilo muito particular que logo agradou a mim e à minha mãe. Ouvíamos muito esse CD, e, quando passou o referido especial, nós gravamos e revíamos juntas. Minha mãe meio que paquerava o percussionista, que era uma figura com um quê de latino, cheio de gingado, e ela adorava homens que tinham balanço, porque ela dançava muito bem e meu pai sempre foi meio durão.
Dando um salto no tempo de pelo menos 10 anos: outro dia cruzei com a Zélia numa livraria em São Paulo. E daí nada, porque eu não tenho nenhuma qualidade de fã, nenhum afã em encontrar um famoso na rua, pero, neste caso, a Zélia, ela própria, me fez querer escutá-la novamente. Não acompanhei muito a carreira dela a posteriori daquele primeiro CD, e este verbo (acompanhar) pra mim significa comprar os CD´s, ler as músicas e não somente ficar de orelhada, como de fato fiquei. Continuei a admirá-la como cantora, compositora e apoiadora de outros projetos, como uma mulher sempre antenada no seu tempo e não uma artista acomodada que repete a fórmula já aprovada pela maioria.
Existe uma gravação que ela fez recentemente com a Simone, de uma música sua chamada A Idade do Céu. Eu já tinha escutado e gostado, mas havia esquecido. Nesse novo momento revival em que quis reouvi-la, baixei várias músicas, entre elas, esta. E ela falou com a minha alma de uma forma inteiramente nova. A questão é que na mesma semana que encontrei com a Zélia, seria aniversário de minha mãe. Mais uma data comemorativa vazia e cheia de angústia. Mas, para a minha surpresa, a música de Zélia me levou até minha mãe e posso dizer que tive uma experiência espiritual com ela. Cantamos juntas. E a letra ajuda, óbvio:
Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu...
E este é só o começo... Acabei entrando no site dela, onde encontro um link assim: fale com a Zélia. Ué! E por que não?, pensei. Vou falar com ela. Contei rapidamente a história e ela me respondeu, desejando que a música sempre nos faça companhia. A minha felicidade foi imensa e eu posso explicar os porquês:
1- A Zélia me levou até minha mãe;
2- minha mãe me levou até Zélia;
3- Zélia é uma artista de verdade porque;
4 - ela não perdeu a conexão com seu público;
5 - o artista cria para emocionar;
6- a tríade artista - obra - público fez intimamente sentido (o que é raro de acontecer).
Tudo isso pra dizer que estou comemorando o fato de ter uma leitora anônima (vide comentário no post Amizades-irmãs), que provavelmente não me conhece pessoalmente, mas me lê. Porque acontece muito de nem os amigos lerem o que a gente escreve. E avaliação de amigo é sempre parcial. Mas de um anônimo, não. E existe uma conexão entre o que aconteceu comigo e com Zélia e com a À la blasé. E não é o rabo do elefante. É a transcendência da criação a Zélia me levar a ter uma experiência com minha mãe a partir de sua música; é a transcendência de embalar a insônia de alguém com meus caracteres. Viva viva!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Como reagir a uma surpresa (ruim)

Perder a razão é sempre a pior escolha, diriam os sábios. Mas e na hora do nervoso, como ter doçura, benevolência, amor ao próximo, quando o próximo aparentemente está, digamos, sem coração?
Alguns optam pelo cinismo, utilizando até um pouco de sadismo. Aí entram aqueles xingamentos que tocam fundo no coração da vítima, com adjetivos como gordo, pobre, zarolho, pé-rapado, loira burra (este no feminino...). Entram aquelas frases neste modelito: "também, né, pobre desse jeito, como iria querer dirigir um carro sem bater", ou, "com essa cara feia, como você acha que pode entender de trânsito", ou então, "quem disse que se consegue guiar decentemente em São Paulo com esses olhos tortos, vá usar óculos, desgraça!". E por aí vai.
O vislumbramento de uma conversa civilizada simplesmente não está subentendido nas discussões de trânsito. Neste caso, armar o barraco faz parte do show e é socialmente aceitável. Lembro-me de uma foto, que estampava uma matéria sobre esse assunto, de uma mulher dentro de um conversível, toda chique, de luvas, óculos escuro, lenço (uma coisa meio Thelma & Louise) com o braço esticado e o dedão médio pra fora, todo incisivo e cheio de energia, apontando pra algum malfeitor. Claro, neste caso há o famoso contraste: uma mulher chique num carrão lindo mostrar o dedo médio é considerado exótico, uma outra mulher numa Brasília fazer o mesmo é sinônimo de má-educação. De toda forma, há um consenso de que, no trânsito, vale tudo, qualquer atitude é aceita, como se estivéssemos sob a pressão de uma guerra e tivéssemos o direito ao desequilíbrio.
Pois ontem bateram no meu carro. Sem levantar a questões de razão e culpa, uma diferença de reações entre mim e a outra pessoa, definiu a situação. Porque nessas horas, se a responsabilidade da batida não for óbvia, há que se negociar, conversar, entrar num acordo do quem-paga-o-que. Pois eu fui conversar. Mas ela estava histérica, literalmente. Propus um acordo. Ela não aceitou e me ainda ofendeu. Desde o momento que os carros se chocaram eu me tornei inimiga dela, foi essa a minha sensação. Digo que fiquei um tanto boquiaberta com essa reação, porque ninguém bate o carro de propósito, só para tirar o outro do sério. Resumo da situação: virei as costas e fui embora.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Amizades-irmãs

São poucas as situações onde lamentamos a perda de meia-hora na nossa vida. O que é meia-hora? É uma cochilada rápida, um texto curto, uma situação banal que acaba logo. O que é esperar meia-hora pelo ônibus ou pelo avião? Meia-horinha passa quase despercebida. Até quase perdemos a hora da meia-hora.
Mas nem sempre saímos perdendo quando chegamos atrasados a um compromisso. Sim, perdemos, mas algo de outra ordem pode tomar lugar daqueles minutos que você perdeu. A situação, que em si, já era esperada, pode se tornar um grande marco.
Estou quase me desculpando pela meia-hora perdida de um show. Quando cheguei, o segurança fez cara de conteúdo e, quase mesmo antes de eu dizer que deveria ter um ingresso à minha espera, ele me conduziu muito amigavelmente, como se já me conhecesse, para a entrada. Olhou nos meus olhos e me reconheceu, foi a minha sensação. Havia ainda um outro segurança, o que ficava na porta, que também me reconheceu e prontamente me fez entrar. E eu, toda culpada pelo atraso, como boa virginiana que detesta ter que pedir licença aos que já estão acomodados e chegaram cedo - ainda mais numa situação dessa. "Ah!", ele me disse. "A sua amiga falou que você iria chegar, que era uma bela morena de olhos verdes". Com essa receptividade, eu estava é gostando de chegar atrasada!
Existem amizades de todo tipo, né? Isso todos sabem. Mas existem outras, de outra ordem. Pessoas que nos conduzem a lugares prazerosos, te puxam pelas mãos, mesmo que você seja forte e consiga empreender a travessia. Porque estão junto; não além, e nem antes.
Entrei na casa de shows lotada. Todos hipnotizados pela baiana que terminava sua turnê nesta terra cinzenta. Uma lanterna me ajudou a encontrar a bela morena que deixara o elogio em forma de recado pelo segurança. Ela segurou minha mão, eu precisava de um porto seguro porque minhas emoções estavam à flor da pele - e ela sabia disso. (Vi este mesmo show, ano passado, ao lado de minha mãe, quando ainda conseguíamos ir em shows, e ela fazia questão de ir, mesmo que não estivésse bem - pra se sentir viva, pra ouvir essa voz e extasiar-se com essa força da natureza).
Existem amizades que estão muito além do mero reconhecimento de afinidades. Estão no terreno da irmandade, onde um atraso é a oportunidade de deixar uma mensagem, a ida a um show revela uma quantidade infinita de pormenores e delicadezas, uma ligação despretensiosa acontece no momento certo, e assim, torna-se espetacular em cada gesto.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Os livros e a comunicação interestelar

Todos temos dúvidas na hora de escolher um livro para ler. Entre um clássico e um contemporâneo, ou seja, investir na formação, digamos, mais histórica ou estar antenado nos lançamentos, é sempre um dilema. Na hora de ler ou mesmo de comprar.
Tenho uma amiga, muito culta por sinal, que lê muito. Ela é filósofa e tem uma bela biblioteca na sua casa. Foi ela quem me fez ler tudo da Clarice Lispector quando eu tinha uns 18 anos e até hoje me empresta seus livros. Fernando Pessoa foi outro que ela me apresentou, assim como foi ela quem me levou a primeira vez num show de Maria Bethânia (Imitação da Vida, em 1998). Ela tem o hábito de comprar muitos livros, daqueles bem grossos. Algumas coisas ela lê para "limpar a cabeça", best-sellers descompromissados ou mesmo romances históricos, daqueles que os intelectuais torcem o nariz. Nós temos esses preconceitos. Por exemplo, ler Isabel Allende é cafona, mas pegar um livro de Siri Hustvedt, mulher do Paul Auster, é mais cult. Deixando as diferenças literárias de lado, há um outro fator que nos faz ler algo: a afetividade.

Eu nunca tinha pensado em ler Henry Miller. Assisti ao filme Henry & June, de 1990, dirigido por Philip Kaufman, com os atores Fred Ward, Maria de Medeiros e Uma Thurman, que formam um belo triângulo amoroso. Mas ontem, comprei, a 70 reais, o seu Plexus. Por quê? A explicação é afetiva.
Andando numa livraria dessas de shopping, uma mega store Saraiva (essas que os intelectuais também torcem o nariz), parei com minha mãe na frente da gôndola de lançamentos. Ela sempre gostou muito de me dar livros de presente. E nesse dia ela parou na frente do Plexus, e fez menção de comprar pra mim. Ela comentou sobre a trilogia, que deveria ser bacana de ler, mas eu não dei bola, desdenhei o Henry Miller com a maior despreocupação. Pois ontem eu fiz questão dele. Foi como se, após sua morte, minha mãe me desse de novo um livro. Aquelas 600 e tantas páginas me darão uma conexão com ela e eu adorarei o Henry Miller meio espiritualmente. Foi depois que notei que esse livro mostra a relação dele com os amigos na boemia nova-iorquina dos anos 1920 e sua busca por se tornar um escritor. Isso me perturbou um pouco. Por que justamente esse assunto? A busca por tornar-se um escritor... Será uma mensagem velada vinda do céu? Minha mãe não tinha idéia que este era o assunto principal do livro, e agora, ela me dá essa mensagem em forma de coincidência? Talvez a resposta esteja longe ainda, mas, pelo menos, ela está se comunicando comigo. (De forma inusitada, por suposto).
E eu terei a vida inteira para decifrar seus sinais.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

A tristeza do mar














Caio Reisewitz, Paúba, 2003,fotografia, P.A.,155,5 x 206,7 cm


Há sempre uma placidez em olhar para o mar. Quando desço a serra, automaticamente o meu estado de espírito se altera. É como se eu retornasse a algum lugar quase esquecido, onde a minha memória poética se exaltava ao olhar o horizonte infinito do oceano. Voltar aos lugares às vezes é reconfortante, em outros momentos traz emoções indomáveis.
Quando abro o armário cheio de roupas de minha mãe, por exemplo, e inalo seu cheiro intocado pelo tempo, sinto-me, sim, um pouco reconfortada. É um pouco confusa essa história... a mochila que ela usou no hospital, o último pijama, as últimas calcinhas, estão exatamente do mesmo jeito. Ninguém consegue mexer naquela mochila, nem eu nem meus irmãos. O armário até conseguimos abrir, pegar umas roupas para usar em sua homenagem. Mas a mochila é a prova irrevogável da sua última viagem de carro pela cidade, do seu último preparo para ir ao hospital, dos últimos cheiros que ela deixou antes de partir. São suas derradeiras pegadas neste mundo. A vontade que dá é entrar naquela mochila e morar ali dentro, como se pudéssemos retornar ao ventre materno e novamente nascer, como se o mundo não tivesse nos arrastado cruelmente até esta umbilical e trágica despedida.
Não tivesse a distância da serra, gostaria de olhar o infinito do mar todos os dias, em comunhão com o tamanho da saudade e da tristeza profundas das minhas águas.


O sono chega na última hora



Insônia. Essa é uma palavra que estava fora do meu vocabulário até: ontem. Os nossos nervos ficam se entortando para entender por que justamente, esta noite, esta bendita noite, às 4h30 da manhã, você não consegue simplesmente deitar e dormir. Fiquei pensando que poderia ter ido dormir um pouco mais tarde, lá pela 1 da manhã, pra não correr o risco de "sobrar sono" no meio da noite e ter que acordar pra compensar o excesso. E o que fazer durante esse tempo desprendido do cotidiano que te obriga a existir a contragosto?
Fiquei na dúvida entre fumar um baseado ou tomar um Lorax. Se eu tomasse o Lorax, o efeito se prolongaria até o dia seguinte e talvez eu perdesse o horário de acordar para ir ao trabalho. Acendi o cigarro proibido na chama do fogão porque não encontrei um isqueiro na escuridão da casa. A brasa era a única luz que a minha falta de sono emitiu; me deu um certo prazer essa cena porque ela representava a minha solidão e o meu desespero pra voltar a dormir. O efeito da maconha pode me fazer dormir, pensei. Mas não fez.
Tive que ligar o computador. Penso que, por falta do que fazer, sou meio viciada em e-mails, tanto de trabalho como pessoais. Sempre esperamos uma comunicação que vá nos salvar do tédio, alguém de longe ou de perto que resolva escrever um texto revelador que nos tire das parcas linhas que recebemos todos os dias. Nada de e-mails. Fiz o caminho mais óbvio, com orkut, gmail, hotmail e uma página de notícias pra não perder o costume. Nada bombástico, apenas o jornal do dia seguinte, Renan Calheiros, e outras chamadas que nada chamam a atenção.
5 da manhã. Os ônibus começam a levar os trabalhadores da primeira hora. A cidade começa a acordar e os sons dos carros derrapando bêbados nas curvas páram: a balada terminou.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Acabou a guarnição.
Tirei o marcapasso. Sentirei minha carne pulsar.
Prefiro o não. A sua inexatidão me faz esperar demais.
Também não sofro mais, sabe. Acontece assim.
Meu coração bate pouco mas é dele fraco que eu preciso.