Em Piaf - Um Hino ao Amor, uma das cenas mais dramáticas acontece ao som da linda execução de Mon Dieu, quando a cantora grita o nome de seu amado Marcel enquanto ele se digladia numa arena de boxe. Esta cena, na minha opinião, é o momento em que o filme é suspenso no tempo e leva o espectador - pego pelo estômago, intestino, coração - a um estado de torpor. É quando Edith está com toda a multidão, como qualquer outra pessoa, e numa situação onde não está sendo assistida e nem admirada. Pelo contrário, é ela quem admira e se exalta com a possibilidade de vitória ou derrota de seu amante. E é ele quem está no palco, que, neste caso, não é o lugar da obra de arte e nem da expressão artística, mas de uma luta que muitos podem considerar supérflua e desnecessária (porque um sempre ganha mas os dois saem fisicamente destruídos). Quem se daria conta que um dia poderia escutar essa voz francesa espetacular a embalar uma luta de boxe (depois do tan tan tan tan do Rocky Balboa soar para sempre a música da corrida e de pular cordas)? Porque são misturas antagônicas - o boxe quase que exige movimento e energia, e a música de Piaf, que obviamente tem esses ingredientes, entre outros, mas formalmente não combina com um esporte. Essa é uma avaliação rasa, mas quem numa sala de edição escolheria Piaf para ilustrar uma luta de boxe? Grande sacada do diretor Olivier Dahan!
Existem momentos imprevisíveis como esse, de combinações que se estabelecem espontaneamente em momentos que ficam imaculados no tempo da nossa memória. Foi a mesma Edith Piaf que, numa madrugada triste, embalou uma despedida de uma pessoa amada. Mas, quando alguém fez soar aquele play de um rádio portátil, fez com que o mundo parasse e eu a visse dançando em algum lugar, quase como negando a existência daquele corpo imóvel e irredutível. Foi outra grande sacada de um diretor, que não é o Olivier Dahan, mas que provavelmente está, neste momento, captando meu melhor ângulo ao escrever esse texto.
PS. Queria agradecer muito ao Ricardo Noblat por ter me dado o privilégio de ter novos leitores, que pretendo honrar com meu esforço de atualizar este blog diariamente . Sejam bem-vindos!
Existem momentos imprevisíveis como esse, de combinações que se estabelecem espontaneamente em momentos que ficam imaculados no tempo da nossa memória. Foi a mesma Edith Piaf que, numa madrugada triste, embalou uma despedida de uma pessoa amada. Mas, quando alguém fez soar aquele play de um rádio portátil, fez com que o mundo parasse e eu a visse dançando em algum lugar, quase como negando a existência daquele corpo imóvel e irredutível. Foi outra grande sacada de um diretor, que não é o Olivier Dahan, mas que provavelmente está, neste momento, captando meu melhor ângulo ao escrever esse texto.
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