Perder a razão é sempre a pior escolha, diriam os sábios. Mas e na hora do nervoso, como ter doçura, benevolência, amor ao próximo, quando o próximo aparentemente está, digamos, sem coração? Alguns optam pelo cinismo, utilizando até um pouco de sadismo. Aí entram aqueles xingamentos que tocam fundo no coração da vítima, com adjetivos como gordo, pobre, zarolho, pé-rapado, loira burra (este no feminino...). Entram aquelas frases neste modelito: "também, né, pobre desse jeito, como iria querer dirigir um carro sem bater", ou, "com essa cara feia, como você acha que pode entender de trânsito", ou então, "quem disse que se consegue guiar decentemente em São Paulo com esses olhos tortos, vá usar óculos, desgraça!". E por aí vai.
O vislumbramento de uma conversa civilizada simplesmente não está subentendido nas discussões de trânsito. Neste caso, armar o barraco faz parte do show e é socialmente aceitável. Lembro-me de uma foto, que estampava uma matéria sobre esse assunto, de uma mulher dentro de um conversível, toda chique, de luvas, óculos escuro, lenço (uma coisa meio Thelma & Louise) com o braço esticado e o dedão médio pra fora, todo incisivo e cheio de energia, apontando pra algum malfeitor. Claro, neste caso há o famoso contraste: uma mulher chique num carrão lindo mostrar o dedo médio é considerado exótico, uma outra mulher numa Brasília fazer o mesmo é sinônimo de má-educação. De toda forma, há um consenso de que, no trânsito, vale tudo, qualquer atitude é aceita, como se estivéssemos sob a pressão de uma guerra e tivéssemos o direito ao desequilíbrio.
Pois ontem bateram no meu carro. Sem levantar a questões de razão e culpa, uma diferença de reações entre mim e a outra pessoa, definiu a situação. Porque nessas horas, se a responsabilidade da batida não for óbvia, há que se negociar, conversar, entrar num acordo do quem-paga-o-que. Pois eu fui conversar. Mas ela estava histérica, literalmente. Propus um acordo. Ela não aceitou e me ainda ofendeu. Desde o momento que os carros se chocaram eu me tornei inimiga dela, foi essa a minha sensação. Digo que fiquei um tanto boquiaberta com essa reação, porque ninguém bate o carro de propósito, só para tirar o outro do sério. Resumo da situação: virei as costas e fui embora.
O vislumbramento de uma conversa civilizada simplesmente não está subentendido nas discussões de trânsito. Neste caso, armar o barraco faz parte do show e é socialmente aceitável. Lembro-me de uma foto, que estampava uma matéria sobre esse assunto, de uma mulher dentro de um conversível, toda chique, de luvas, óculos escuro, lenço (uma coisa meio Thelma & Louise) com o braço esticado e o dedão médio pra fora, todo incisivo e cheio de energia, apontando pra algum malfeitor. Claro, neste caso há o famoso contraste: uma mulher chique num carrão lindo mostrar o dedo médio é considerado exótico, uma outra mulher numa Brasília fazer o mesmo é sinônimo de má-educação. De toda forma, há um consenso de que, no trânsito, vale tudo, qualquer atitude é aceita, como se estivéssemos sob a pressão de uma guerra e tivéssemos o direito ao desequilíbrio.
Pois ontem bateram no meu carro. Sem levantar a questões de razão e culpa, uma diferença de reações entre mim e a outra pessoa, definiu a situação. Porque nessas horas, se a responsabilidade da batida não for óbvia, há que se negociar, conversar, entrar num acordo do quem-paga-o-que. Pois eu fui conversar. Mas ela estava histérica, literalmente. Propus um acordo. Ela não aceitou e me ainda ofendeu. Desde o momento que os carros se chocaram eu me tornei inimiga dela, foi essa a minha sensação. Digo que fiquei um tanto boquiaberta com essa reação, porque ninguém bate o carro de propósito, só para tirar o outro do sério. Resumo da situação: virei as costas e fui embora.

2 comentários:
Adorei seus textos, Paula. Os temas e a forma. Entrei via dica do Noblat e vou continuar passeando por aqui. Bjs.
Pois é, Aninha, o Noblat deu o maior empurrão. Passe sempre e prometo não te decepcionar! rs
beijão, Paula
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