Existe uma diferença entre o óbvio e o necessário. Entender isso de forma essencial muda um pouco a relação com as palavras, o mundo.
Era óbvio que ontem eu estaria triste. Quando a dor é coletiva e ainda está exposta e sangrando em todos, pra quê explicitar em choros e palavras de saudade, quando todos sabem, dentro e profundamente, que estamos lidando com uma ausência primordial? E cada data comemorativa é como atravessar um rio sem ver a margem oposta. (Você nunca pulará se puder escolher). Para ser honesta, talvez eu não tenha mergulhado. Acho que me desconcentrei demais - e flutuei. Peguei carona com uma pluma. Eu não acreditei ser uma pluma ou não busquei a leveza como uma estratégia para amenizar minha dor. Simplesmente me tornei uma, como se eu pudesse emprestar da natureza uma qualidade distante da minha (a leveza), e ela, generosamente, me levou até o outro lado da margem, com o corpo seco e limpo (sem a lama e a sujeira que minha dor revolve).
O silêncio tem uma elegância implícita. Provavelmente cada um de nós, em seus carros, camas, chuveiros, ou a caminho (como foi meu caso), na estrada, com luzes brilhando, tristes minhas lágrimas, implodindo meu peito; sim, o recolhimento também é elegante. A tristeza era óbvia, porém não necessária, era isso que eu queria dizer. Para quê torná-la necessária, inspirar compaixão, reforçar a dor? Celebrar aquela sua alegria, aqueles gestos, aquele amor - retribuí-lo, compartilhado, eternamente.

4 comentários:
NÃO É ESSE O CASO
Olhar a tristeza de frente, sem medos ou receios. Olhar nos olhos, lembrando que um dia o destino apagará algumas marcas. Redentor e ao mesmo tempo ingrato. Imponderável e condescendente.
A nossa existência continua e não é intacta, nem feita somente de despedidas. Surpresas, descobertas, exceções.
Retribuamos à vida, sigamos em frente com atenção à dor (sem conivência) nossa origem.
Eu, em minha cama, lembrei que, com as lágrimas, meus olhos brilham mais, detalhe para o meu aperfeiçoamento. De frente para o passado – de costas para o futuro? Nem sempre é o caso, viveremos o óbvio intensamente, passado, presente, futuro.
O silêncio nunca perde a sua elegância, nos ajuda a atravessar o rio, oferece uma oportunidade de introspecção. Doutor da nossa singularidade.
Montei o meu próprio palco, com a intenção de fazer uso de todo figurino e roteiro, até que se fechem as cortinas, apaguem-se as luzes e alguém também sofra por mim, pela minha ausência, como eu, sem ser o meu querer.
Flutuamos.
O desconcerto é um precedente que me abre horizontes e eu não sou feito de prata.
Uma nuvem me serve de carona.
A angústia já se encontra em estado de fermentação.
Incerteza.
Marcas que ficam...
Marcas que vão...
Não me desvio dos meus medos, desta convivência depende o meu sucesso. De mãos dadas e apertadas estamos.
O destino vem aí.
E é certo!
(Roberto Alencar)
Obrigada pelos comentários, Roberto. Queria agradecer à Aninha e À la blasé pelos votos, secretos ou não, que me fizeram neste fim de ano.
Esse texto, que de óbvio não tem nada, era necessário para me colorir e me fazer crescer num dia em que acordei pequena. Obrigada. Muitos beijos com muito orgulho em formas e sentidos, Marina
Costumo pensar que dor, silêncio e luz são nossos companheiros eternos e por isso mesmo já perdem seu sentido de obviedade.
Nas metáforas que as palavras nos permitem, até parecem antagônicos...mas...não são.
Lembro dos primórdios fetais onde não tínhamos contato nem com a dor e nem com a luz...somente o silêncio compartilhado. Todavia, no instante do nascimento, pela primeira vez, eles aparecem...ali, imponentes, nos dando os seus primeiros golpes, mostrando crueldade até e se firmando como necessários por toda a nossa existência. Com a luz, acontece o mesmo. No cerrar do olhos percebemos que ela se foi em razão da escuridão e, neste momento, nos retiramos, recolhidos...seria de volta ao ventre?
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