Isso me deixa meio frustrado.
Eu não conseguia fazer a guitarra chorar. Eu é que chorava, quando ainda era sensível. Mas vamos assoprar a névoa do flash-back. Senão vou ficar triste. No meio dessas linhas existem outras que eu não ponho aqui de jeito nenhum. E é nelas que está a verdade. Portanto, não me façam perguntas. Não tenho vocação pra dar entrevista.
De toda forma, eu era o Billie Jean da escola. O ritmo dos meus passos eram guiados pela música e todo mundo dizia que eu era o the one. Era assim que eu entendia os comentários. Eu era o príncipes dos canalhas. Era um pé rapado, mas quando acendia um cigarro, fazia isso com tanto charme, com tanta sacanagem implícita que eu sabia exatamente qual era a xoxota que pulsava de longe pra mim. Eu tenho uma vulgaridade comedida que faz de mim quase um intelectual. Solto umas frases decoradas no horóscopo. No meio da conversa, falo uma coisa sem sentido assim: você tem medo de se entregar porque não confia no amor.
O que é um homem sem um naco da sua perna? O corpo é uma fresta do amor. Não se vive integralmente a felicidade sem um pedaço de um corpo que, mesmo sendo completo, sofre de inexatidão, de descabimento. Senti-me a vida inteira expatriado de meu próprio corpo. Um desengonçamento sempre prevaleceu nos meus movimentos e isso gerava um certo encanto para as mulheres, que se achavam um complemento (ao menos corporal) para minhas lacunas. A minha sobrevivência sempre se deu pela falta. Tudo que não tive se tornou um monstro gigantesco e extremamente amedrontador para mim e para o mundo. Eu só devolvi minha raiva amargurada e guardada no devido quarto escondido da minha inconsciência uma única vez. E justamente nesta única vez que resolvi boxear o mundo com meu ódio contido quem estava na minha frente era o meu melhor amigo, o Ignácio.
Eu ando sempre muito cabisbaixo quando estou na rua. Não sei, mas eu tenho uma necessidade quase doentia de olhar o chão enquanto caminho. Tenho que ter a certeza de que o meu próximo passo será acolhido e que essa estrutura tão rígida e óbvia não vai desaparecer de repente. Como as pessoas conseguem andar na rua olhando para frente, como se o chão nunca fosse se movimentar? Por que elas consideram assim tão claramente que ele estará lá para segurar seu corpo do desabamento? Eu não confio mesmo. Não tem essa de horizonte. Isso eu olho quando estou parado. E mesmo assim, tenho que me apoiar porque senão desabo. Eu não sou auto-sustentável.

4 comentários:
Paula,
Você diz: "...apesar de meio, talvez, sem lógica..."
Isto me surpreende.
Que insegurança?!
...apesar...
...de estar meio...
...talvez...
...sem lógica...
...mas acho...
Você conhece o livro: RELATO DE UM CERTO ORIENTE (um espetáculo!)do nosso competentíssimo escritor MILTON HATOUM? Que a propósito, recebeu, em 1990 o Prêmio Jaboti de melhor Romance.
Se for o caso, dê uma pesquisada e compreenderá o que digo.
Seu excerto está ótimo, nos estilo de prosa evocativa, que também é minha veia.
Um abraço.
(Roberto Alencar)
Um pouco de modéstia, talvez...
Eu li Dois Irmãos, do Hatoum, e achei maravilhoso. Devo ler o Relato? E fiquei curiosa, o que é prosa evocativa? beijos, Paula
Gostei, Paula. Sem me apegar à teoria litérária, o que posso dizer é que, pelo trecho, leria teu conto ou romance sem tédio. Vai fundo!
Aninha,
Vou publicar mais trechos por aqui.Vamos ver se um dia consigo levar adiante a idéia do romance. Valeu pelo empurrão!!!
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